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Por D.Hamilton===============
Era o fim dos tempos. Não não, sem figuras de linguagem aqui. Ia
acabar a porra toda mesmo. A moça do tempo tinha dito que haveria
pancadas de chuva pela manhã com grandes chances de cavaleiros do
apocalipse e miséria no final da tarde.
"Que fazer?" pensou o
pobre rapaz que havia passado seu curto tempo nesse plano perdido em
sonhos, devaneios e danças de quarto.
"Pai, mãe, valeu por tudo aí, sério. Não vai servir pra nada agora. Mas valeu a tentativa, de coração. Falou."
Ele sabia exatamente o que queria.
A
casa dela era a algumas quadras dali, umas horas bastariam. E ele foi,
correndo e conhecendo apressadamente todo o sofrimento que a vida traria
se não fosse cancelada por motivos de força maior. Imprevistos
acontecem. Pessoas tirando a roupa, brigando por comida, dançando,
bebendo, se matando. Uma cena engraçada, se parar pra pensar. Todo mundo
ia morrer.
O rapaz conseguiu chegar vivo, depois de
sofrer tudo o que tinha que sofrer e mais um pouco. Ferido, cansado,
sequelado, traumatizado, apaixonado. Ainda dava tempo pra isso. Ainda
existia força naquele corpo pra bater na porta e chamar o nome dela. Mas
sem gritar, pois ele já tinha aprendido que moças não gostam de
grosseria e frenetismo.
Nisso, a porta se abriu timidamente. E por trás dela, a mãe da dita-cuja.
"Quem
diabos é você?" é uma frase que descreveria muito bem o momento. Mas
ainda atrás da senhora, estava a paixão do pobre rapaz.
Aqui
faço uma pausa para ressaltar a loucura que certos dias podem trazer no
seu enredo. Tem dias em que a gente acorda e quer mais é que o mundo se
exploda pra poder ficar mais tempo na cama. Já em outros dias, o mundo
tá realmente explodindo e você corre atrás das suas paixões como nunca
sequer correu atrás de um ônibus.
Mas bem, para o
espanto da inocente garota, o rapaz estava ali. Vivo, respirando,
olhando para ela. Por um segundo, a vida ficou curta demais pra não se
falar o que sente. Ele a puxou pelos braços gentilmente, e em um canto
não longe, mas mais reservado e de acústica adequada à presença da mãe
da garota, resolveu botar pra fora tudo o que tinha pra dizer.
"..."
Era isso.
Ela,
como é de se esperar, perguntou o que ele estava fazendo ali, em pleno
fim do mundo. A resposta era bem óbvia, e ela já sabia. Mas em um
passado não muito distante, as coisas desandaram entre os dois.
Imprevistos.
O momento era bem inusitado. Meteoros se
chocavam com a terra, raios atingiam pessoas nas ruas, demônios
aterrorizavam a cidade em uma belíssima tarde de domingo, onde também se
harmonizavam as árvores e outras coisas fofinhas que tornam um dia mais
bonito às vezes.
"Então.. fim dos tempos. Loucura né?"
"É, to sabendo."
"Pois é.. mas então, eu tava pensando esses dias na gente e... bem, a gente não se dá sempre bem, né?"
"Hm."
"É que, sei lá, eu.. eu sei que sou muito igual a você lá no fundo. E
eu também sei que sou tedioso de vez em quando, inconveniente, quem
sabe. E eu não sou muito bonito também e.. cê sabe,”
O
rapaz foi interrompido por um ser grande, de chifres que fazia um
barulho estridente ao se locomover, que foi tirado imediatamente do
local por um sujeito peculiar de cabelo comprido e barba que vestia uma
túnica. Apenas um susto.
"Cara... eu to com a minha família ali. Fala logo o que você quer."
As opções eram várias. Que tal falar logo que amava ela e ver a reação?
Sem tempo pra isso. Ou ainda perguntar como ela estava, jogar um charme
e arriscar um beijo? Não. Vamos todos morrer. Sem tempo pra isso. E
olhar nos olhos, dar um abraço e senti-la nos últimos momentos de vida?
Que egoísta. Sem tempo pra isso. Não há muito que fazer nessas horas.
Então o rapaz segurou e acariciou a mão dela, rindo.
Por que diabos ele estaria rindo agora? A garota estava até com medo, sem ação, sem entender.
E curiosamente, os olhos dele deram sentido para tudo aquilo.
Que
ridículos que eram! Ambos estavam de mãos dadas diante de tudo o que
existia na vida e estava prestes a acabar. Coisa de filme. Ninguém nem
imaginaria. A garota começou a rir timidamente também. Que momento
constrangedor.
A vida ia acabar ali, naquele fim de
tarde. Tudo o que existia eram duas pessoas que não sabiam de
absolutamente mais nada que se valha a pena saber. Conectadas. O tempo
perdido já não importava mais.
O riso dos dois cresceu
em poucos segundos. Não 6existia mais tempo hábil para viver certas
experiências. Mas também já não era necessário. Poucos segundos antes do
fim, o sábio plano do rapaz havia se concretizado: ela estava sorrindo.
Triste,
com medo, angustiada, mas ainda podia sorrir. Havia tempo pra isso. Era
só o que importava. Havia espaço, como sempre houve.
Então o apocalipse para eles foi cancelado.
Já não era mais o fim do mundo.
Era apenas o destino natural da vida.
Viver, crescer, experimentar, sentir medo, angústia, rir, conhecer o ridículo, fazer alguém feliz e então,
finalmente, ou não,
partir.