sexta-feira, 28 de outubro de 2016

ssurfer.txt


Quinta marcha, próximo sinal é amarelo, segundo ainda está verde, terceiro também. Passei por todos, amarelos. Curva, a uns anos atrás recebemos uma carta da prefeitura falando que se você manter uma certa velocidade em uma linha reta, consegue pegar todos os sinais abertos e verdes, ou grande parte deles... o nome publicitário para esta mentira era "ondas de trânsito" ou qualquer porcaria do tipo.
Volume trinta, para a potência do som do meu carro isso é alto o suficiente. As vezes me preocupo do som me impedir de ouvir a rua, mas nunca precisei. A música combina com a noite, certas músicas possuem um propósito obscuro de você ouvi-las no carro. 
Duas e quarenta, pouca gente na rua, o padrão muda um pouco durante o dia. Por aqui ainda existem pessoas trabalhando, pessoas se divertindo e pessoas com algum tipo de vazio ou dúvida existencial, só altera a frequência de cada tipo de pessoa. Claro, sempre tem aqueles que se divertem no trabalho, ou que trabalham pensando na existência, mas não vamos dificultar.
Zero kilometros por hora, cheguei no mercado vinte e quatro horas. O motivo de estar aqui é procurar ajuda da forma menos eficiente possível. Quero encontrar pessoas e observar o ritmo delas, entre um corredor e outro pensar na minha vida antiga e o que eu estou fazendo comigo agora... Ali, aquele casal parece bem transtornado. Por que? Quem precisa de tanto pão de queijo congelado as duas da manhã.
Vinte um e quarenta centavos, nada do que eu comprei vai matar a minha fome ou é de fato bom, nada do que eu comprei vai saciar minha vontade de que algo me tirasse do lugar.

O mesmo trajeto, o mesmo roteiro. Acalma, acalma bastante fazer tudo isso, ao mesmo tempo que soa infinitamente deprimente. Constantemente preciso realizar movimentos não muito bem calculados, esperando que algo aconteça. Peço socorro do jeito que consigo.
De volta em casa, como e bebo tudo. Observo a vista da janela esperando vir algum impulso que me faça querer agir. Nada, tento procurar as estrelas no céu nublado de onde estou agora, queria não estar em casa, não sei mais onde queria que fosse a minha casa, para falar a verdade. Não foi dessa vez.
Deito, espero, e tento acreditar que amanhã vai estar tudo bem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário