terça-feira, 28 de julho de 2026

Suicídio Ornamental.exe

Existe uma grande pinicação dentro de mim sobre a temática do desviver. Me recordo de quando Robin Williams se matou, todo o papo do "palhaço triste", do "busque ajuda", do "um sorriso pode esconder muitas dores" . O discurso me pegava um tanto, mais do que o agente em si. Em 2014 estava no meio da faculdade, num início de um episódio forte de depressão, pouca esperança sobre o futuro e muitas realidades desesperancosas ao meu redor. O cara devia tá passando por uma barra, deixou seu legado e partiu, adoro que o nome da filha dele é zelda. Tudo fica nebuloso quando se propõe a falar sobre alguem que não está aqui para falar sobre si, mas a humanidade tem um fascínio, e em grupos, temos projetos direcionados à esse fascínio. 2014 também foi quando graça infinita veio pro Brasil, eu esperei por muito tempo isso rolar, mas não tinha dinheiro na época pra comprar. Lançaram o livro parece que com medo, esgotou mega rapido, foi uma jornada inteira do Galindo em traduzir, altas complexidades de uma escrita bem pinacular estadunidense. 

"There are these two young fish swimming along and they happen to meet an older fish swimming the other way, who nods at them and says “Morning, boys. How’s the water?” And the two young fish swim on for a bit, and then eventually one of them looks over at the other and goes “What the hell is water?” - DTW

Eu não sou do rock, então não me bate como referência os casos de suicídio e overdose de artistas do gênero e correlatos durante anos 90 e 2000. Porém tem uma imagética da desesperança que me pega bastante. Eu por muito tempo (e talvez ainda) tive David foster Wallace como uma inspiração de vida. Eu pretendo mas nunca li graça infinita, tenho até um certo medo do que vou encontrar lá. Wallace se foi em 2008, breves entrevistas com homens hediondos é o tipo de arte crua e torta e etérea e cacofônica que me inspira, além das suas várias entrevistas e ter revisto o filme the end of the tour mais de duas vezes sozinha - o que pra mim é muito para um filme. 


Nessa época eu me peguei lendo um tanto sobre saúde do trabalhador, comprei um livro chamado "do assédio moral à morte de si - significados sociais do suidicio no trabalho", que para além de uma capa um tanto hardcore, explicita o óbvio: todos os sabores e requintes do capitalismo neoliberal nos mata, nos leva a morte, nos produz a necessidade de escapatória no desviver pelo esgotamento. 


Minhas leituras atuais permeiam muito dos trabalhos do pessoal do CCRU, e inevitável não desaguar no Mark Fisher em algum momento. Fisher ressignificou o suicidio do kurt cobain para mim, a nossa sociedade faz um trabalho intenso em serpentear o discurso do desviver. Não existe curva moral que abrace com tranquilidade a decisão de alguém decidir cancelar o seu próprio futuro. Num angulo realista, é uma batalha constante a ser superada, a vida em si tem seus prazeres pequenos em aquis aqui e agoras acolá, mas existe esse véu pesado que combinaram chamar de civilização. 



David Foster Wallace e Mark Fisher se propulsionaram pra fora da vida e vivem como fantasmas nas minhas memórias, não infrequente eu questiono o quão intankável seria para o wallace viver num mundo tão barulhento, do quanto a realidade que ele previa e temia foi chegando até ele. Seus pensamentos viram um eco no meu viver. O debate continua, é um pouco diferente de pensar o que meu amigo ia achar do proximo capitulo de one piece, pq me coloca em perspectiva com o desviver. É sobre alguém que deixou alguma inércia cultural. Pessoas que se encontraram sem escapatória na sua própria elaboração de um futuro triste que os alcançara. Vejo vários entrelaces, não sei se fisher escreveu sobre DFW e sua crítica à ironia pós-moderna que moldou completamente as décadas seguintes, imagino que isso compõe um mosaico interessante com o realismo capitalista e a produção do cinismo. Fazer o que, Fisher nem deve ter assistido Lain. Não quero nem imaginar o que eles diriam sobre tiktok. 



A gente talvez esteja no pós-pós, no pós-pós-modernismo, no pós-ironia, no pós-farsa pt 2: o inimigo agora é o mesmo. Hal foster usa muito o Trump pra explorar esse efeito de choque e revolução cultural que foi devorado pela extrema direita ao longo dos últimos anos. Uma hyper ironia, como se promove ironia contra alguém que é a sua epitome? Não é atoa não existir um novo GTA nessa última década: não existe sátira com a nossa realidade satírica o suficiente, não existe pós-deboche mais contundente que o sufocamento do presente num futuro já cancelado. E não a toa a empresa que representa um dos maiores capitais culturais do país mais influente culturalmente do mundo lançou Red dead Redemption 2 nessa década, o futuro cancelado num mundo em que alguma moral quase mística existia, uma moral que nem sempre era guiada pelo capital (mas sempre guiada pelo capital). E claro, também transformou GTA V só num gigantesco e grotesco casino de faz de conta, um mundo pra se perder em si. O comentário de Foster sobre o poder crítico na pós modernidade ter sido devorado pela extrema direita em sua repetição, se entrelaça com o realismo capitalista, tudo é produto, tudo é entendiante, tudo é óbvio; e tudo também é escancarado. Um maluco do the boys dirije um Tesla e foda-se, no cap. 



Se tem alguma coisa que eu me pego pensando sobre minha escrita, é que ela é exausta. Eu dou voltas e tento ir direto ao ponto ao mesmo tempo, pq é assim que minha cabeça funciona, mas pq como uma criatura do meu próprio tempo, ou eu sobrevivo no cinismo e ironia ou eu explodo. Dentro de mim ainda existe um lobo de faixa na cabeça que quer botar algo contundente e maravilhoso pra fora e desistir da sociedade logo (uns anos) depois, me trouxe um acalento gigantesco por muito tempo, e não sei se vou me desapegar disso. Ao mesmo tempo que tenho receio de ler fantasmas da minha vida do fisher, por que nao sei o quanto me identificar mais com um processo depressivo vai me fazer bem ou não. Existe um processo do pensar que busco algo nesses ecos e me escancara como um holofote.


O ponto é que eu tenho um problema em acreditar, desejar. É isso que eu tô tentando resolver dentro de mim. Observar como esse processo se dá me faz pensar que eu não sei se acredito no comunismo nesse exato momento da minha vida, eu sinceramente não acredito em muita coisa. E eu venho cada vez mais entendendo o processo do desejar, do produzir cultura fértil. 

Eu já lidei com o suicídio por diversos angulos, já tive meus momentos de acompanhar gente em hospital, atravessar a cidade em desespero para impedir algo, ter que beber muito pra admitir que não ia conseguir passar uma noite sozinha sem fazer algo contra mim. Desesperança.

É foda dizer que esses caras tem a mesma dor que eu, eu não sou especial, nem eles. todo mundo está sofrendo de exploração interminável dos nossos corpos em todos os campos, o capitalismo é uma cortina infinita. Nit está certíssime em dizer que estamos num eterno scooby doo que tira-se a mascara e o vilão é sempre esse sistema. Esses caras sabiam que eles não eram especiais, na verdade, e que tinha algo muito grande e maior assolando a realidade.

"im not the wise old fish"- DFW


Estou fazendo um curso de escrita com uma das jornalistas (sou o tipo de chata [no bom sentido] que tem jornalistas favoritos) que eu mais admiro, que é a Marie Declerq, e uma das atividades foi criar sua própria versão do poema "What I Believe", do J. G. Ballard, e eu só consegui escrever uma frase:


"eu acredito no que nego acreditar"

 

Sou um corpo treinado para sempre se ejetar quando for possível. Maquínica de guerra. Eu estou num processo de tentar curar essa parte de mim que se via como opção o cancelamento do próprio futuro dentro de um presente opaco. Estou tentando realocar grandes camadas do que já usei até aqui pra sobreviver, junto do choque todo que é transicionar. O mundo me soa mais hostil, mas eu me sinto mais feroz. Estou tentando desmantelar os filmes de cowboy e propaganda de guerra fria que estão impregnados no meu ser. Meu pai acreditava naqueles filmes, no romance deles. Eu só conseguia enxergar que alguém precisa ser parea de uma sociedade que não pretende te permitir viver nela, que te mastiga e cospe longe, e que alguém precisa se sacrificar por isso. 


We don't need a cyber Jesus made of meat. 




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