— Eae, meu velho (…). Então, tô conseguindo manter um ritmo bem legal nos últimos dias, tá bem mais fácil de caminhar longas distâncias e tudo mais… mas eu venho ficando bem cansado de andar pelo mesmo espaço, o mesmo todo, sabe? Assim… eu desço aquela rua que tem a loja de materiais de construção atééé a avenida e, sei lá, resolvi ir um pouco além ontem. Atravessei a avenida, bem de boa, não tava muito quente, com uma brisa boa na sombra, tá ligado? Aí segui até uma rua que dava, que era sem saída. Nem sempre elas são sem saída para os pedestres, até porque a maioria das placas só servem pra carros, né? Enfim, dei de encontro com um senhor cortando grama, ele levantou a mão, eu levantei a minha de volta. Eu tava de fone, então não sei se ele falou algo, mas também não sei se ele percebeu que eu tava de fone, sei lá… deu a sensação de que ele tinha falado alguma coisa. Continuei descendo a rua, que era bem arborizada e bonita. É outro bairro e, por incrível que pareça, algumas quadras para dentro, já rola uma diferença entre as árvores plantadas. Geralmente a gente vê mais daquelas árvores grande e longas, recheadas de orquídeas e musgo, né? Por esse lado elas são menores, mas com muito mais flores, muito mais cores e possibilidades. Provavelmente algum prefeito dos anos 80 teve esse conceito, que para ele era genial, mas não muito para algumas vizinhanças. Mais à frente, encontrei o mesmo senhor andando com um cachorro…? Na verdade, não sei se era mesmo o mesmo senhor ou não. Eu tava andando meio rápido tentando controlar a respiração, só acenei e segui em frente.
Por um momento eu comecei a achar estranho o quão grande era aquela rua sem saída. De qualquer forma, colocaram uma placa num lugar muito errado, até porque ainda tinha algumas outras bifurcações, mesmo que eu tenha visto mais de um carro dando meia volta para não entrar naquela rua. Sei lá, enfim… só gente perdida mesmo, até porque, mais à frente, entrou um Chevette puta bem conservado, o senhor de dentro dele acenou, e continuei o caminho. Logo à frente, tinha outros dois senhores conversando através de um muro, um de dentro da casa e outro do lado de fora, com uma sacola de mercado na mão. Eu já tava meio exausto, então resolvi sentar num toco de árvore do outro lado da rua, sem antes ser cumprimentado pelos senhores. Acenaram e, quando retornei o aceno, pareciam irmãos. Tava bebendo minha água e comecei a sentir um ar de urgência, sei lá, deviam ser os hormônios batendo… a vontade de continuar andando. Desliguei o fone de ouvido e fiquei prestando atenção na conversa dos dois… provavelmente eram mesmo irmãos, tinham umas vozes muito parecidas… falavam sobre o tempo e ficavam se chamando de "meu velho" a todo momento, era meio engraçado.
Nesse meio tempo, o coroa no Chevette se aproximou de nós e perguntou para mim: "Iai, meu velho, qual as horas?". Eu resolvi entrar na brincadeira da região e devolvi com um "Opa! São 9h47, meu velho!". O senhor riu, agradeceu, e seguiu caminho, beeeem vagarosamente, como se estivesse tirando o carro só pra dar uma movimentada nele, mesmo. Enfim, resolvi continuar andando pra ver se chegava logo no fim da rua. Tava exausto, mas meio empolgado ao mesmo tempo, não queria perder a oportunidade… não sei se a palavra “empolgado” é a melhor, mas algo me dava uma vontade de caminhar mais e mais, quase que um sentimento familiar, de conforto, sabe? É o tipo de parada que só bate quando você tá com a endorfina lá no topo… há quantos anos que eu não sinto isso? Não faço ideia.
— Sim, meu velho, também faz tempo que não sinto isso, rapaz! Ainda mais aqui dentro de casa… não tenho muito espaço para sair para me movimentar, só fico aqui para tomar um sol gostoso mesmo. Fico feliz que você tenha aparecido, meu velho, comprou o que de bom do mercado?
obrigado amanda, que editou