Há coisas depositadas no fundo. Eu venho estudando e conjecturando sobre tempo e todas as estruturas que permeiam isso de alguma forma. Sinto cada vez mais a necessidade de compreender em palavras como as diversas passagens de tempo me atravessam, uma forma de recuperar de uma vertigem da realidade.
"Time, is it really that time again, Dr. Freeman?"
Vinciane Despret, em "Um brinde aos mortos: Histórias daqueles que ficam", vai canetar sobre a interação entre es que já desviveram e es que estão vives por aí. Existe um desejo dos mortos em serem relembrados (aqui, manter o gênero "o" é intencional), e um papel ativo, por consequência, dos vivos em os relembrarem.
O que é, para um tempo coletivo histórico, estar vivo? Despret enfatiza a ideia de que uma vida rememorada definitivamente é uma vida não terminada, ela não continua, mas se tem “mais” existência com o cuidado de quem vive. Penso em nomes, o apreço por nomes, legados, histórias que rasgam o tempo com poder e/ou reconhecimento. A busca e a tentativa pífia de exercer um eco irreparável em vida, se projetando em ego. A pressão pela prole, pela procriação, pelo legado em forma de outras vidas deformadas pela sua própria busca por relevância.
Num mundo de poder estruturante e estrutural, em um momento em que além a memória do passado, mas principalmente a projeção de um futuro é algo em completa disputa, o que está nos escombros? Muita coisa, claro. O tempo presente, como diz Donna Haraway, é denso e turvo, há muito a se investigar. No meio da assombrologia de Mark Fisher, uma das bases para ele formular o livro "Realismo Capitalista", e outras análises angustiosas do projeto neoliberal que neutralizou um imaginário de futuros e se esgota agora até para o campo da direita, e os inúmeros esforços em se "Viver com o problema" como Haraway coloca, estamos aqui, estou aqui.
Eu sinto até hoje a pontada de ter lido o primeiro capítulo de "Realismo Capitalista" e ter sido descrita tão fielmente. Presa num cinismo sabichão, melancólica ao meio de descamações de futuros que não podem ser, com imaginários totalmente sequestrados por uma suposta luta eterna e selvagem: a "natural" sobrevivência. O capitalismo e tudo que desagua dele, as ruínas do neoliberalismo de Tatcher que sufocou qualquer revolta, o refinamento de máquinas projetadas a nos tornar espectadores performáticos de um tempo embaçado. Existe uma disputa sobre o existir como humanidade. Parafraseio aqui o Manifesto Xenofeminista: estamos entrelaçades na constante manutenção moral das mídias sociais, fetichizando opressão como se fosse uma benção, preses em apontar e denunciar, entorpecides por inovações regidas pelo mercado, tornando a tecnologia algo muito menos que se é. Star Fox tem 30 anos de história e será seu quarto remake, reimaginação, remaster. Não é sobre histórias que são ricas no seu "RE"-algo, como Haraway fala de Ursula K. Le Guin, são apenas personagens presos no capital especulativo.
Somos furrys espaciais fadades a percorrer as mesmas curvas do espaço, dando 360° graus em torno do seu eixo, mazelas de um tempo perdido. Busco palavras desde sempre, sinto que nasci em luto. Nasci e vivo em luto de um mundo que o natural e inevitável é a sobrevivência, como se no fim fosse você e outra pessoa num banheiro sujo e nojento e a única opção é ser mais rapide em pegar uma arma e apontar para qualquer um pela sua própria sobrevivência. Jogos mortais de uma irreparável ferida colonial no tempo e espaço. É como Le Guin coloca em "The Carrier Bag Theory of Fiction", as histórias pontudas e violentas, com um herói ao topo, não cabem numa bolsa que garantiu muito mais a sobrevivência humana que qualquer arma.
Existe todo um tracejado. Ariella Azoulay enfatiza que precisamos desaprender o tempo e espaço imposto pelo imperialismo, temos que desaprender em coletivo. Eu prefiro desaprender em matilha. Família, amor, tempo, compromisso, troca... ainda sou uma furry espacial do meu tempo, rasgade por essa necessidade de palavras, de prevalecer sobre a culpa cristã/colonial instalada na raiz da minha programação. Me pego muito no que Audre Lorde propõe, eu busco as palavras que ainda não tenho, tento ver algo menos generificado na minha raiva, luto através dos fantasmas de olhares de momentos em que minha raiva foi só frustração em erupção numa pequena vila que se estabelece no pé de um vulcão.
"Cis people always have timelines.
I mean, I know not every cis person has that life, but - what are the cis people in my life doing? What are they doing in your life? Versus what the trans people in your life are doing? On a macro level. Ask yourself that."
- Casey Plett, Little Fish
Mackenzie Wark dialoga com Mark Fisher, o que temos nas ruínas? Wark é trans d+ para parar na assombrologia, em Raving ela pontua muito bem formas de dissociação como prática na pista de dança, em raves. Também elabora muito bem sobre o limite até onde algo pode se perder completamente na estética do capital, nas pequenas entranhas que tudo se é algo único e rapidamente deixa de ser, se torna reprodutível. Do continuum de rave, em que o tempo nesses espaços se torna algo particular de interações, respiro, essência, necessidade. Como e onde se escapa ou se pausa de um luto por elaboração? Essa frase eu não sei da onde veio, tenho quase certeza que não de mim, mas anotei sem citação: "Escrever e pensar são práticas ancoradas no corpo, corpo esse que não é dado, é moldado"
Sim, galera de Bash Back, Marx e Engels nunca foderam como nós, e Wark se pega imaginando como seria uma rave em Nova York durante a pandemia com o Fisher, e eu me pergunto se a Mackenzie já foi num psycore no meio do mato.
Busco palavras, mas também busco corpo.
Busco compreensão, mas também busco fluidez.
Quando minha avó faleceu, precisos três meses após seu centenário, eu não estava mais lá. Não estava pois já tinha perdido meu maior vínculo com a família, não estava pois não poderia mais estar. A tia que me criou faleceu a poucos anos atrás, ela vive nas minhas palavras e memórias, nos meus sentimentos e maneira de existir no mundo, algum tico dela tá espalhado por aí. Toda vez que eu jogo donkey kong country ela tá aqui, processos de espiralar. Essa é uma morta que se estende em outras vidas, minha avó também, que não só vive em mim, minha mãe, mas nos zíperes que eu passei a infância inteira olhando curiosa (não importa se são os mesmos zíperes ou não) e me diverti dividindo com criaturas que matilham ao meu redor. Seja lá o que elus criarem com aquilo, existe uma história que se entrelaça no tempo e no afeto.
Independente de estar lá ou não, é óbvio que existe uma diferença entre a possibilidade ou não de escolha. E nesse último cenário, não me via escolha, poderia dar suporte para minha mãe, que sabia da minha transição, para minha tia mais próxima a minha mãe, que também sabe. E era isso. Quando confirmado o falecimento de dona Lídia, meu primo ia fazer a viagem de 8/9horas até o velório, questionou para minha tia se eu queria carona, e sua resposta foi a de que “eu estava viajando”. Da mesma forma que contam para crianças que o cachorro morreu, “foi viajar pra bem longe”. Não quero contato, mas também existe um descontato... essa foi a “solução” para uma pessoa trans nesse contexto, pois a verdade não seria possível.
Não escapa da minha cabeça que no funeral de minha avó, parentes de minha mãe perguntavam onde estava alguém que não existe mais. Eu e minha avó mortas em diferentes perspectivas de tempo. Claro, ela está de fato morta, descansou, ainda bem, não estou esquecendo a materialidade para ser tão dramática assim, pelo menos não agora. De qualquer forma, para um tempo histórico coletivo, o que significa para uma pessoa trans estar viva? Muitas coisas, não é mesmo. Muitos processos individuais, muitas dinâmicas relacionais, muitas aberturas e desconfortos.
Morri quando trans ou nasci? Depende, morri e nasci, nesse espaço de tempo e elaboração pode se usar várias palavras, cada singularidade em lidar com sua própria história, cada busca por respeito diferente em sua própria história. Eu fui viagem-morta ou viagem-viva? Para algumas pessoas eu sou uma morta-viva andando por aí. Minha avó morreu, e eu só sou uma travesti a 600 km de distância sendo chamada pelo nome morto, vivendo uma vida que não existe, andando por aí na boca e imaginário dos outros. As orações será que tão chegando? Eu pensava nisso, se demora tanto tempo para suas informações trocarem na retificação, e muitas vezes você precisa brigar pra mudar, como é a agilidade dos emissários cristãos que enviavam as orações que minha avó fazia para mim? Será que depende se o anjo em questão é transfóbico? Pelo menos esse problema já foi, Ain’t nobody praying for me.
Ain't nobody prayin' for me
Ain't nobody prayin' for me
Ain't nobody prayin' for me
I feel like a chip on my shoulders
I feel like I'm losin' my focus
I feel like I'm losin' my patience
I feel like my thoughts in the basement
Feel like, I feel like you're miseducated
Feel like I don't wanna be bothered
I feel like you may be the problem
I feel like it ain't no tomorrow, fuck the world
The world is endin', I'm done pretendin'
And fuck you if you get offended
I feel like friends been overrated
I feel like the family been fakin'
I feel like the feelings are changin'
Feel like my daughter compromised and jaded
Feel like you wanna scrutinize how I made it
Feel like I ain't feelin' you all
Feel like removin' myself, no feelings involved
I feel for you, I've been in the field for you
It's real for you, right? Shit, I feel like -
- FEEL. ( do pior album de Kendrick Lamar, que é sobre morrer e reviver e morrer e reviver) Não sou a primeira nem a última pessoa experienciando a vivência trans em um mundo que não quer que você exista, na curva de um momento histórico que nem mesmo o assimilacionismo algumas partes da própria comunidade LGBT+ está disposta a nos oferecer, com o imbecil de um militante de esquerda querendo se render a memética do desespero em alimentar o povo com um sacrifício, e nós fazemos parte do prato principal. Vai se fuder, Paulo Galo. Não sou a primeira nem a última existência trans a elaborar o quanto a nossa existência, em toda sua diversidade, ainda é de mortes-vives em algum momento ou parâmetro. Seja o desconforto do nome morto, das interações cotidianas, a indigestão disfórica vivendo no cistema, das violências que te fazem desejar e ansiar ter a habilidade de moldar o seu corpo a todo custo mesmo que doa pra cacete, ou sei lá… da simples possibilidade de existir em espaços sem ser e unique de sua espécie aparentemente. Então que alívio não estar sozinha aqui, não ter que ser a primeira a escrever sobre algo ou existir sobre algo tem seus efeitos num mundo desse, sei qualé.
Caia Coelho elaborou sobre a necessidade de nomear o transfemigenocidio em um texto do dossiê da antra de 2019, os impasses em nomenclaturas e definições que excluem o limite do que se é humano o suficiente para suposta protecao da lei ou não, se a gente junta isso com necropolitica, é sobre a morte existir em vida muito além de uma possibilidade, por mais absurdo que isso possa soar. Se morre de várias formas. Pessoas trans não tem muita dignidade póstuma por aqui, não se tem garantia a nome social pós vida, para onde essa vida vai, ou vem, para onde esse tempo é tracejado? Impossível ser no tempo do capital, no tempo da justiça burguesa, no tempo da cisnorma e do cistema.
“O sistema de justiça criminal, que prometeu nos proteger contra a transfobia, seguiu nos matando, mais que como vidas matáveis, como mortos-vivos massacráveis. O que caracteriza um morto-vivo não é a sua vida-além-da-morte. É, em alguma medida, a vida e a morte como tempos indistintos.
E a sobrevivência, nesses termos, comunga com a assombração. Este tempo que não passa talvez nos garanta a vantagem de ver sem sermos vistos, e então podemos manter alguma esperança, zelando por uma sobrevivência que já não será mais resto, será um excesso de vida que nenhuma cisgeneridade poderá atingir ou alcançar.
- Caia coelho, 09/12/2025, postagem no instagram
A peça No Fim do Beco, encenada pela Colu, Majo e Trava da Fronteira, essa última também na dramaturgia, me vem em ecos. “Já me mataram tantas mais que duas”, responde Poliana com história e vida completamente atravessadas e desrespeitadas por ter seu nome morto no túmulo. É uma história sobre possibilidade de se honrar a morte trans, uma possibilidade de elaboração, Trava da Fronteira fala sobre isso na coletiva de imprensa no festival de teatro de Curitiba, como que a morte também pode ser um lugar de contar nossas histórias trans e travesti. Despret, Haraway, Mackenzie, Caia iam adorar a peça, isso eu tenho certeza. Espero que pelo menos Caia tenha oportunidade de ver um dia. Posso continuar postergando de ler Derrida por mais um tempo, tamo brincando com espectralidade de alguma forma aqui.
”Se for pra ter nação, prefiro ser estrangeiro” - Flecha lemes 03/11/2025 @machorraedicoes
Flecha escreveu um tempo atrás sobre a ideia de não se ter fronteira, da vida trans não necessariamente ter uma nação, das suas próprias vivências e experiências ao redor disso. Seja pela imposição da própria comunidade nos seus tropeços entre tentativas de assimilacionismos e desesperos profundos por formas de existir em vida no Brasil de 2026, seja pelos próprio pontos da Caia; não tem ninguém pra nos proteger. Se nem as orações são feitas nos nomes corretos, imagina os direitos. Se nem os túmulos são respeitados, imagina as diferenças fora das frestas de um sistema binário.
O espaço de não espaço dentro desses tempos que a maioria das pessoas vive não comporta a experiência trans. A vida do que se percebe dentro e fora da nossa existência, é turva e densa. Quantas vezes, em família, as mesmas pessoas que supostamente nos acolhem e entendem nos matam e nos revivem cotidianamente, o quanto tempo leva pra gente naturalizar nossa mortevivísse pois não nos tem muita escolha, é uma experiência muito singular, que também leva a galope pra longe o conceito de família. Essa família de morte vivida e vida morrida não comporta, não dá conta, imagino que esteja bem claro o porquê.
Plantas que crescem no concreto fazem parte de se cimentar toda terra que vê, das frestas até a deterioração, dos rios subterrâneos por debaixo das cidades, como Ailton Krenak descreve bem. Os rios são sua família, a natureza o guia em confluência, o subterrâneo não será suficiente por muito tempo, mas terá que ser pelo tempo que precisar. Memória é resistência, desejar é o que nos possibilita ter futuro. A materialidade trans começa muito antes de ser flor, mar ou monstro, se aprende a ser subterrânea, paradoxo y rasgo. São nessas curvas, espirais e atravessares que se é algo muito maior que o permitido, que com sorte se constrói relações que se refletem na distinção e pluralidade. Matilhar.
"Sergeant Farrell: Well, I think Bill's got a point. If you look at the whole life of the planet, we, you know, man has only been around for a few blinks of an eye. So, if the infection wipes us all out... that is a return to normality." - 28 days later
Existem várias elaborações por aí sobre terror em seus mais variados sabores e experiências trans. Lembrei de um dos contos de “Meanwhile, Elsewhere: science fiction and fantasy from transgender writers”, “Delicate Bodies”, que a protagonista, uma mina trans, vira um zumbi e todas as linhas de gore, consentimento e monstruosidade saem exageradamente borrados.
“She had a sinking feeling the only thing she wanted now was brains… But that was revolting! Her belly growled at the thought of eating human brains? Or just human flesh in general? Suddenly all she could think of was the salty warmth of blood pumping from a fluttering heart. Every fiber of her body was crying out for her to feed. Tear. Rip flesh. Bathe in the blood. Rinse. Repeat.
This was worse than testosterone! She was a vegetarian. Her family was Buddhist. She could barely stand the thought of eating meat, let alone her own kind!
Although, she thought to herself, were they really her own kind? People like her certainly weren’t seen as fully human.“ A ideia aqui não é sobre uma maldição, bem longe disso, é sobre nomear um existir no mundo, nortear um desconforto, ficar com o problema. Seja o quão metafórico e concreto ao mesmo tempo esse problema contemporâneo pode soar, Haraway, as coisas estão absolutamente postas numa vida trans. Ser “natural” e “humano” com as regras desse baile normativo e adoecedor não é a solução, e não tem muita gente suficiente por aí pra explicar que o problema obviamente não se resolve apenas seguindo a norma, a disforia cis é cacofonica e prevalente, apenas a chamam de outros nomes.
“If, however, one avoids the linear, progressive, Time’s-(killing)-arrow mode of the Techno-Heroic, and redefines technology and science as primarily cultural carrier bag rather than weapon of domination, one pleasant side effect is that science fiction can be seen as a far less rigid, narrow field, not necessarily Promethean or apocalyptic at all, and in fact less a mythological genre than a realistic one.
It is a strange realism, but it is a strange reality.”
- The Carrier Bag Theory of Fiction, Ursula K. Le Guin
Encontrar palavras não só para carregar narrativas por aí a fora, na tentativa de projetar um desejo punjente de mudança, que novamente se abra para fabular futuros, mas carregar palavras na bolsa de si, para conseguir perdurar num presente tão implacável, que nos força a lembrar do que nos compõe pra não enloquecer (do jeito que não é legal pra própria integriade física e alheia). Muito mais xeno que qualquer outro feminismo que não se intersecciona para além do que lhe soa comum e "normal". Pra sempre Jota Mombaça e Conceição Evaristo: Que nos lembremos umes a outres de não morrer, vamos deixar isso bem combinado, mesmo que não combinem de não nos matar. A comunicação zumbizistica é bem mais orgânica e micélica que esperam, e devoraremos o que estiver ao caminho para nos acomodar ao novo.