sábado, 18 de janeiro de 2014

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Pegou todas as suas coisas, que se resumiam a uma mala velha e seu taco de golf e partiu para a estrada. Dentro do seu Mustang não existia nada de errado. Era o seu completo porto seguro. Não existiam dívidas, mulheres, nem amigos para te incomodar. Seguiu a toda pela estrada empoeirada. 

Os primeiros flocos de neve da temporada já começavam a cair. A estrada não estava empoeirada, estava cheia de areia, uma forma de prevenir que possíveis nevascas impeçam a movimentação de famílias entre o ponto a ao ponto b durante as férias que estavam se aproximando junto com o inverno. 

Parou o carro no acostamento, passou a mão no chão atrás de seu banco, a procura de alguma coisa para se aquec.. Aqui. Uma garrafa. Puxou para próximo de seu rosto para tentar identificar o que era. Estava sem seus óculos, sorte que isso não o impedia de ver a estrada, tinha pena daqueles com miopia que tinham que ceder da estética para poder dirigir. 

Era cerveja, não iria o aquecer tanto, mas pelo menos estava gelada. Jimo's Lager, esta cerva era das boas. Seguiu caminho, deu o primeiro gole. Por que ainda tinha cerveja dentro da Musty? Se lembrou lá pro quinto gole, tinha saído um dia para resolver uns problemas com um amigo. Seu pai lhe ensinara que sempre é importante ser educado com seus convidados, deixar eles se sentirem confortáveis. E a vida lhe ensinara que não existia algo melhor do que uma boa Jimo's para se acertar as coisas.

Arremessou a garrafa vazia para o acostamento ao lembrar que o infeliz não bebia. Infeliz! Como alguém pode negar uma Jimo's? Melhor, como poderia ser amigo de uma pessoa como essa? Aquela noite pelo menos foi boa. Ao deixar o tal amigo num ponto de ônibus, com sua dívida paga, entrou em uma boate. Arrumou uma briga pela ruiva de saia roxa, mas quem não arrumaria? Que pernas. E como sempre, Musty estava ali para tirá-lo da enrascada.   

Quem precisa de mulheres quando se tem um motor v8. Um bom amigo das antigas chamava seu Mustang preto de Stanley, não conseguia conceber a ideia de alguém dar nome de homem para um carro. Nunca cuidaria tão bem de Musty se ela se chamasse Stanley. Aliás, que nome ridículo, consegue claramente imaginar que tipo de pessoa se chamaria Stanley. Um empregado submisso em uma repartição qualquer, que passa o dia todo apertando botões sem ao menos se questionar o motivo. 

Acelerou o carro, fez Musty gemer, era assim que gostava de dirigir. Daqui a pouco um policial iria o seguir, pedir para ele parar, fazer todo aquele protocolo que já estava cansado. Mas hoje não, era feriado nacional. Além de que ninguém iria sair de casa em pleno final de Softball, até os policiais tiravam folga atrás das placas de propagandas do governo. Que ironia, propagandas sobre respeito ao trânsito, ao limite de velocidade e os riscos de beber e dirigir. Outra placa, esta sobre cigarros. “CIGARRO MATA, CUIDE DE SUA SAÚDE”. Um belo slogan, só tinha um detalhe, quem eles pensam que são para insinuar que cigarro não é uma boa forma de morrer?

"Cuido da minha saúde assim!", foi o que gritou ao acender seu Derby. Liberdade é isso, sem gente para te dizer que precisa arranjar um emprego melhor, ninguém te falando que cerveja faz mal e que deveria seguir os passos de outros, nenhum corno te intimando por não fazer um serviço melhor com sua mulher que o "cara do Mustang". E o melhor, ninguém para questionar seu apreço por Golf.

É incrível como todo mundo consegue facilmente apontar o dedo e destilar veneno sobre a forma de viver dos outros, mas não consegue em nenhum momento reconhecer seus próprios problemas. Sabia claramente qual era seu maior problema, os outros. Também sabia como solucioná-lo. Se livrando deles. Se livrando de uma forma pacífica, claro. Nem seu pai nem a vida o ensinaram a matar para se ver livre de algo.

Golf foi outro hábito que não aprendeu com seu pai. Tinha orgulho disso, era uma coisa só dele. Suas atitudes consideradas loucas e estranhas pelos outros era o que o faziam sentir único, no fundo todo mundo deve se sentir assim, mas quem liga. 

Quando não tinha idade para dirigir e beber, Golf era uma de suas formas de se sentir livre, além de começar a falar sobre assuntos aleatórios e fazer constatações óbvias rapidamente. Nunca parou para pensar o que perturbava mais os outros, mas deveria ser o Golf. As pessoas gostam tanto de apontar os erros das outras, pois não são capazes de realizar nenhum daqueles "erros", ou simplesmente atitudes fora do considerado padrão na frente dos outros.

Parou para abastecer. 

- Quantos litros? Perguntou o frentista. 

- Pode embebedar a Musty, enche o tanque.

Sem nenhum questionamento o frentista cumpriu a ordem, recebeu o dinheiro, acenou para o rapaz no Mustang vermelho e voltou a se sentar ao lado de sua mulher na beira da estrada
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- Quem era aquele doidão? 

- Um rapaz que sempre passa por aí, ontem me veio com um papo de liberdade, perguntou se eu nunca tinha pensado em abandonar o posto. 

- E que você respondeu, homem? 

- Perguntei se ele não se cansava de fazer a mesma coisa quase todos os dias

- Como assim? O que ele respondeu? 

- Ah, esse cara sempre vem aí, ouvi dizer que tem algum problema mental, quem mora no pé do morro sempre reclama.
 
- Por quê? E você não me disse o que ele te respondeu.

- Então, isso eu não sei, sempre passam apressados pro trabalho segunda de manhã e me dizem isso. O rapaz respondeu que o tempo era relativo e que tinha gostado do meu sapato, entendia que uma família era um bom motivo para não se movimentar muito e elogiou o seu cabelo.

- Oh, pelo menos o moço é educado.

- Talvez seja por isso que achem ele louco, mulher. Ou pelo fato de falar coisas aleatórias e fazer constatações óbvias, irritante. Claro que seus cabelos são lindos, você é inteira linda.

O casal deu as mãos enquanto observava o Mustang Vermelho seguir com toda velocidade a estrada que dava em direção ao topo do morro. Como um cavalo selvagem. Poucos que realmente são efetivamente selvagens hoje em dia, livres. Desapareceu no horizonte. 

https://www.youtube.com/watch?v=YrfZdv4PEXI
Escrevi essa história faz um bom tempo, no ano passado (hehe), mas não tinha terminado. Cheguei num ponto que eu achei que poderia puxar para qualquer tipo de coisa, algo pesado, algo extremamente pesado, ou algo mais leve. Foram tantas possibilidades que eu acabei deixando ela de lado. 
Talvez ela agora não tenha sido bem colocada no meu planejamento, e muito menos na minha ordem de histórias já escritas. Pior ainda, talvez o fim dela não tenha sido tão bom quanto as possibilidades que eu tinha pensado e esqueci, quem sabe eu reconstrua depois se achar legal. Mas isso não significa descartar esta aqui.
Ocorreu algo engraçado dessa vez. Ao ler o que já tinha escrito, conversava comigo mesmo. Lembrava do que me veio a cabeça enquanto escrevia, isso é bom. Ahh.. a vida e a temporalidade.

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