quarta-feira, 16 de julho de 2014

showinho.docx

Chamem marceneiros, engenheiros, cientistas e pedreiros. 
Quero toda a sociedade de olho no meu feito. 
Todos distraídos com o show que planejei, levem eles pra fazenda, a terra que eu sou rei. 
Terá malabaristas, trapezistas, vendedores e pugilistas. 
Uma festa como essa de longe se paga à vista. 
Todos eles bem felizes nunca saberão a razão. 
Essas foram as palavras do coronel, rei soberano da situação.
Tornou-se louco do dia para a noite e ninguém sabe a solução. 
O grand finale do velho maluco é presentear o seu gado com o melhor vinho. 
Vinho estrangeiro da terra do canarinho.
Mal sabia seus capatazes do conteúdo dessa oferenda.
Era cicuta com certeza, a base da merenda.
Matou o gado, matou o povo, para ele todos eram suas cabeças a governar.
Sem um pingo de noção, resolveu também se matar.
Só sobrou a mim, o violeiro andarilho.
A carne estava boa, a bebida nem pensar.
Sinto cheio de veneno até em um pisar.
Encontro um cachorro sozinho, amarrado para nao gerar confusão.
Vem comigo, meu amigo, por esse mundo de ilusão.

http://www.afonsolopes.com/wp-content/uploads/2014/04/Vinho_Sangue_de_Boi.jpg

terça-feira, 10 de junho de 2014

march to the sea.docx

Você não disse adeus, em outras ocasiões também não diria, então eu tento compreender.
"Um adeus nunca é um adeus, não se despede assim."
Eu acreditava em cada palavra sua, antes de você se jogar no mar.
 
Exigia e transparecia confiança em todos os momentos, parecia impenetrável. Olha só, você se descobriu humano, e descobriu que geme demais. Abandonando sua tripulação em alto mar, é esse tipo de coisa que as pessoas fazem? Minha inocência não deixava ir além, seu fim era então meu fim? Vou trair a confiança daqueles que tanto me seguiam e abandonar tudo por algo menos complicado que tantas jornadas e aventuras atravessadas?
 
O caminho é complicado e todos sabemos disso. Eu me mantenho do seu lado, eu me mantenho por você. Cada momento existem desafios que parecem os finais, aqueles que te levarão de vez para o fim ou para a glória. Porém você me ensinou que não se pode sempre ganhar. Aprendemos em cada jornada, bem-sucedido ou não, experiências que são levadas para sempre. Marcas no casco de nosso navio e em nossos corações.
 
Marchamos para o mar juntos, e assim devemos ficar. Não vacile comigo agora, temos um caminho brilhante pela frete. Quando éramos jovens tudo era tão bom. Mas não existe mais passado para nos apoiarmos, apenas essas mesmas cicatrizes de guerra, e com elas nos mantemos orgulhosos. Nunca caminhe só, foi isso que aprendi com você. Mas um mesmo deslize, um pequeno detalhe, também me faz te ter como inspiração maior, e seguir a marcha para o mar.
 
Me diga agora, quem está em cargo disso tudo? Eu pensei que você seria minha ajuda, levei tempos para sair daqui, agora eu voltei de onde vim. Sem perigo, o mar me salvou, o mar vai me aceitar de volta, ao seu lado.

March to the sea

terça-feira, 3 de junho de 2014

atalho.txt


=============================================Por D.Hamilton===============

Era o fim dos tempos. Não não, sem figuras de linguagem aqui. Ia acabar a porra toda mesmo. A moça do tempo tinha dito que haveria pancadas de chuva pela manhã com grandes chances de cavaleiros do apocalipse e miséria no final da tarde.
"Que fazer?" pensou o pobre rapaz que havia passado seu curto tempo nesse plano perdido em sonhos, devaneios e danças de quarto.

"Pai, mãe, valeu por tudo aí, sério. Não vai servir pra nada agora. Mas valeu a tentativa, de coração. Falou."

Ele sabia exatamente o que queria.

A casa dela era a algumas quadras dali, umas horas bastariam. E ele foi, correndo e conhecendo apressadamente todo o sofrimento que a vida traria se não fosse cancelada por motivos de força maior. Imprevistos acontecem. Pessoas tirando a roupa, brigando por comida, dançando, bebendo, se matando. Uma cena engraçada, se parar pra pensar. Todo mundo ia morrer.

O rapaz conseguiu chegar vivo, depois de sofrer tudo o que tinha que sofrer e mais um pouco. Ferido, cansado, sequelado, traumatizado, apaixonado. Ainda dava tempo pra isso. Ainda existia força naquele corpo pra bater na porta e chamar o nome dela. Mas sem gritar, pois ele já tinha aprendido que moças não gostam de grosseria e frenetismo.

Nisso, a porta se abriu timidamente. E por trás dela, a mãe da dita-cuja.
"Quem diabos é você?" é uma frase que descreveria muito bem o momento. Mas ainda atrás da senhora, estava a paixão do pobre rapaz.

Aqui faço uma pausa para ressaltar a loucura que certos dias podem trazer no seu enredo. Tem dias em que a gente acorda e quer mais é que o mundo se exploda pra poder ficar mais tempo na cama. Já em outros dias, o mundo tá realmente explodindo e você corre atrás das suas paixões como nunca sequer correu atrás de um ônibus.

Mas bem, para o espanto da inocente garota, o rapaz estava ali. Vivo, respirando, olhando para ela. Por um segundo, a vida ficou curta demais pra não se falar o que sente. Ele a puxou pelos braços gentilmente, e em um canto não longe, mas mais reservado e de acústica adequada à presença da mãe da garota, resolveu botar pra fora tudo o que tinha pra dizer.

"..."

Era isso. 

Ela, como é de se esperar, perguntou o que ele estava fazendo ali, em pleno fim do mundo. A resposta era bem óbvia, e ela já sabia. Mas em um passado não muito distante, as coisas desandaram entre os dois. Imprevistos.

O momento era bem inusitado. Meteoros se chocavam com a terra, raios atingiam pessoas nas ruas, demônios aterrorizavam a cidade em uma belíssima tarde de domingo, onde também se harmonizavam as árvores e outras coisas fofinhas que tornam um dia mais bonito às vezes.

"Então.. fim dos tempos. Loucura né?"

"É, to sabendo."

"Pois é.. mas então, eu tava pensando esses dias na gente e... bem, a gente não se dá sempre bem, né?"

"Hm."
"É que, sei lá, eu.. eu sei que sou muito igual a você lá no fundo. E eu também sei que sou tedioso de vez em quando, inconveniente, quem sabe. E eu não sou muito bonito também e.. cê sabe,”

O rapaz foi interrompido por um ser grande, de chifres que fazia um barulho estridente ao se locomover, que foi tirado imediatamente do local por um sujeito peculiar de cabelo comprido e barba que vestia uma túnica. Apenas um susto.

"Cara... eu to com a minha família ali. Fala logo o que você quer."

As opções eram várias. Que tal falar logo que amava ela e ver a reação? Sem tempo pra isso. Ou ainda perguntar como ela estava, jogar um charme e arriscar um beijo? Não. Vamos todos morrer. Sem tempo pra isso. E olhar nos olhos, dar um abraço e senti-la nos últimos momentos de vida? Que egoísta. Sem tempo pra isso. Não há muito que fazer nessas horas. Então o rapaz segurou e acariciou a mão dela, rindo.
Por que diabos ele estaria rindo agora? A garota estava até com medo, sem ação, sem entender.
E curiosamente, os olhos dele deram sentido para tudo aquilo.

Que ridículos que eram! Ambos estavam de mãos dadas diante de tudo o que existia na vida e estava prestes a acabar. Coisa de filme. Ninguém nem imaginaria. A garota começou a rir timidamente também. Que momento constrangedor.

A vida ia acabar ali, naquele fim de tarde. Tudo o que existia eram duas pessoas que não sabiam de absolutamente mais nada que se valha a pena saber. Conectadas. O tempo perdido já não importava mais.

O riso dos dois cresceu em poucos segundos. Não 6existia mais tempo hábil para viver certas experiências. Mas também já não era necessário. Poucos segundos antes do
fim, o sábio plano do rapaz havia se concretizado: ela estava sorrindo.

Triste, com medo, angustiada, mas ainda podia sorrir. Havia tempo pra isso. Era só o que importava. Havia espaço, como sempre houve.
Então o apocalipse para eles foi cancelado.
Já não era mais o fim do mundo.
Era apenas o destino natural da vida.
Viver, crescer, experimentar, sentir medo, angústia, rir, conhecer o ridículo, fazer alguém feliz e então,

finalmente, ou não,
partir.